Mudar a pisada na corrida evita lesões? O que diz a ciência
Pisar com o calcanhar faz mal? Uma revisão de 53 estudos mostra que mudar a pisada não previne lesões. Veja a explicação completa.
Pisar com o calcanhar faz mal? Uma revisão de 53 estudos mostra que mudar a pisada não previne lesões. Veja a explicação completa.
Em uma mesma prova, cada corredor pisa de um jeito. Fisioterapia esportiva para corredores na Mata da Praia, em Vitória/ES.
02/11/2026. Quem pratica corrida costuma ouvir esse tipo de conselho: pisar com o calcanhar faz mal, o certo é apoiar o meio ou a ponta do pé. Tem gente que muda a pisada por conta própria, depois de um vídeo na internet ou da dica de um colega de treino.
A intenção é boa. A pessoa quer correr melhor e se machucar menos. Mas será que a ciência confirma essa ideia?
Uma das respostas mais completas sobre o assunto foi publicada em 2020 na revista Sports Medicine, uma das mais respeitadas da área. E o resultado pode surpreender muita gente.
Um grupo de pesquisadores australianos, liderado por Laura Anderson e Christian Barton, reuniu 53 estudos sobre o jeito de pisar na corrida. Eles compararam quem aterrissa com o calcanhar e quem aterrissa com o meio ou a ponta do pé, olhando para três coisas: lesões, gasto de energia e a forma como o corpo absorve o impacto.
A primeira conclusão é a mais importante. Não foi possível comprovar que algum tipo de pisada proteja contra lesões. Os estudos que existem sobre isso olham para o passado dos corredores, e esse tipo de pesquisa não consegue mostrar causa e efeito.
A segunda conclusão derruba outra crença comum. Mudar a pisada não deixou ninguém mais econômico. Em alguns casos, logo após a mudança, os corredores passaram a gastar mais energia para manter o mesmo ritmo.
Com base nisso, os autores não recomendam que um corredor sem lesão, que pisa com o calcanhar, mude o seu padrão.
O estudo também mostrou o que acontece no corpo quando alguém troca a pisada. Ao apoiar o meio ou a ponta do pé, o joelho passa a receber menos carga. Isso parece ótimo, mas tem um outro lado.
O trabalho que o joelho deixa de fazer vai para o tornozelo, a panturrilha e o tendão de Aquiles. Um dos autores resumiu da seguinte forma: mudar o estilo de corrida desloca a carga, mas não faz ela desaparecer.
Na prática, quem corre bem e muda a pisada sem necessidade pode trocar um joelho tranquilo por uma panturrilha dolorida ou uma tendinite no Aquiles. É comum ver isso no consultório em corredores que fizeram a mudança rápido demais.
Não é bem assim. A recomendação dos pesquisadores vale para quem corre sem dor. Para quem já tem uma lesão, a história pode ser outra.
Como a pisada no meio do pé alivia o joelho, ela pode ajudar algumas pessoas com dor na frente do joelho, por exemplo. Já quem tem problema no tendão de Aquiles provavelmente vai piorar com essa mudança.
Por isso, qualquer ajuste na forma de correr deve partir de uma avaliação e ser feito aos poucos, com acompanhamento. Não existe uma pisada certa para todo mundo.
Se a pisada não é a vilã, o que costuma levar o corredor a se machucar? Na maioria das vezes, a resposta está no treino.
Aumentar o volume rápido demais, emendar provas sem descanso e voltar a correr antes de se recuperar de uma lesão anterior são situações que aparecem com frequência nas pesquisas. Uma lesão nos últimos 12 meses, por exemplo, é um dos sinais de alerta mais consistentes.
Força muscular, sono e a forma de progredir na planilha também contam. São pontos que dá para ajustar, ao contrário do formato do pé.
Se você corre sem dor, a melhor notícia é esta: sua pisada provavelmente está boa do jeito que está. Vale mais a pena cuidar do treino do que mexer na técnica.
Agora, se a corrida começou a incomodar, procure uma avaliação antes de fazer qualquer mudança por conta própria. No consultório, em Vitória, eu analiso a forma de correr, o histórico de lesões e a rotina de treinos de cada corredor. Só depois disso faz sentido sugerir algum ajuste.
Para agendar sua avaliação, entre em contato pelo WhatsApp.
Referência
Anderson LM, Bonanno DR, Hart HF, Barton CJ. What are the Benefits and Risks Associated with Changing Foot Strike Pattern During Running? A Systematic Review and Meta-analysis of Injury, Running Economy, and Biomechanics. Sports Medicine, 2020;50(5):885-917. Acesse o estudo.